O Mistério do Game Reverso: uma experiência de escuta com impacto e significado
- Monalisa Vasconcelos
- 30 de mai. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 3 de jun. de 2025
Vamos conversar aqui sobre o processo criativo por trás de “O Mistério do Game Reverso”, um podcast ficcional de 30 minutos criado para crianças de 8 a 11 anos. A história integra um cardápio pedagógico multiformatos, voltado à educação para o trânsito, autocuidado e cidadania.

A proposta era ousada: transformar temas densos em uma narrativa sonora envolvente, acessível e emocionalmente ressonante — e, acima de tudo, significativa para o público infantojuvenil. O resultado foi um suspense que une o universo dos games e sabedorias ancestrais para criar diversas camadas simbólicas, sensoriais e pedagógicas.
O desafio
Como transformar conceitos como respeito no trânsito, autocuidado e cidadania em uma experiência que realmente conecte com crianças e gere impacto? Como fazer isso sem cair na armadilha do conteúdo moralista ou condescendente?
Essa era a questão central do projeto. Para respondê-la, criei um enredo que traz uma protagonista
de 11 anos e cadeirante, Stella. Ela tem um irmão gêmeo, Nuno, que por sua vez tem um grande amigo cujo apelido é Donga. Há ainda a Mãe dos gêmeos e a gata Mika, que narra a história.
Nela, a aguerrida Stella se prepara há meses para disputar a presidência de um conselho municipal; seu sonho é implementar mudanças em toda a estrutura da cidade que levem em conta a mobilidade das pessoas com deficiência. Mas no dia do último debate, algo sinistro acontece com seu irmão, o Nuno, e com o amigo dele, o Donga. Depois de horas jogando videogame no quarto, Donga sofre uma estranha alteração, que faz com que ele faça e fale tudo como se estivesse sendo rebobinado. Em seguida, Nuno começa a sentir os mesmos sintomas.
Mesmo sem querer – afinal eles vivem brigando – ele pede ajuda à irmã. Stella recorre a um antigo livro onde encontra indicações fundamentais para uma vida saudável – e, para casos como esse que tem em mãos. Mas o tempo corre depressa, e ela precisará resolver esse enigma, ajudar os dois correndo um sério risco de perder grande debate.
Como eu construí essa experiência
Camada 1: Storytelling simbólico e emocional
O ponto de partida foi a criação de personagens com profundidade e propósito. Stella não é uma heroína “apesar” de sua deficiência — ela é forte, ativa, idealista e cheia de camadas. Sua deficiência faz parte de sua realidade, mas não a define. Ela sonha, erra, hesita e age. Seu desejo de transformação urbana revela, de forma simbólica, o próprio conceito de cidadania planetária, tão caro à Green Nation.
Já o irmão gêmeo, Nuno, representa o oposto complementar: bagunceiro, impulsivo, distraído. O conflito entre os dois não só move a narrativa, mas permite trabalhar o valor do autocuidado, um dos pilares desejados pela marca Arteris.
As charadas que surgem no caminho — e que Stella precisa resolver para salvar os meninos — são conectadas aos quatro elementos da natureza, cada um vinculado a uma dimensão do autocuidado:
💧 Água: cuidado emocional
🌱 Terra: cuidado físico
🔥 Fogo: cuidado espiritual
🌬 Ar: cuidado social (aqui ativado pela música)
A quinta chave, descoberta por meio da gata Mika, é a alegria — o elo entre todos os cuidados e o retorno à vida em harmonia.
Camada 2: Design sensorial e ambientação sonora
Como a escuta era o único canal sensorial disponível, cada detalhe sonoro foi desenhado para transmitir espaço, tempo e afeto. O roteiro trouxe marcações claras de:
Ambiente físico (sons dos quartos, do bairro, do relógio, da cadeira de rodas de Stella, do sino dos ventos etc.)
Clima emocional (ruídos abafados, silêncios estratégicos, sons em reverso para marcar o “efeito do game”)
Ritmo narrativo (contraponto entre tensão e alívio, ação e contemplação)
Essa ambientação construiu uma imersão poderosa para crianças, que puderam visualizar o mundo mesmo sem vê-lo — e se identificar com ele.
Camada 3: Trilha sonora como elo emocional
As trilhas originais foram compostas com base em indicações específicas minhas no roteiro. Cada momento exigia uma emoção: misticismo, leveza, tensão gamer, superação. A música ajudava a traduzir o que não era dito — e conduzia as viradas narrativas com sutileza.
Impacto e estudo de caso
O impacto desse projeto foi tão significativo que decidi transformá-lo em objeto de análise para meu TCC na pós-graduação em Influência Digital: Conteúdo e Estratégia (PUC-RS). A pesquisa investigou como narrativas sonoras com personagens humanizados e conflitos simbólicos podem potencializar o valor de marca na podosfera e gerar influência real junto ao público.
A nota foi máxima. Mas mais importante do que isso foi confirmar, com profundidade e método, aquilo que o processo criativo já revelava: quando criamos histórias com verdade, empatia e propósito, deixamos de apenas informar — e começamos a transformar.
Para quê criar um podcast a mais, se podemos criar aquele que transforma?
O Mistério do Game Reverso é mais do que um podcast: é um exemplo de como o storytelling pode ser usado para educar, emocionar e fortalecer laços entre marcas e pessoas — mesmo (e especialmente) quando falamos com crianças.
Como roteirista e UX Writer, acredito que histórias sensoriais, simbólicas e acessíveis são uma ferramenta potente para criar experiências de escuta com impacto e significado.
Um 😘 e um 🧀 , inté!
Mona



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