Engenharia de vínculo a serviço da educação clínica e quebra de paradigma
- Monalisa Vasconcelos
- 21 de jul.
- 11 min de leitura
Atualizado: 23 de jul.
O que a dramaturgia no design de conteúdo tem a nos ensinar sobre a capacitação em temas técnicos e sensíveis em healthtechs.

Neste artigo eu vou te contar como transformei prontuários de uso medicinal de cannabis em engenharia de vínculo. E como recursos dramatúrgicos podem ajudar no aprendizado de temas complexos sem abrir mão nem do rigor científico, nem da humanidade.
Contexto
Casos Clínicos é uma realização do Instituto CEC (Centro de Excelência Canabinoide), healthtech que une atendimento clínico, pesquisa e educação especializados no sistema endocanabinoide no Brasil.
Essa série de podcasts que vamos analisar integra um curso da Escola de Neurologia, feito para médicos, com o objetivo de ajudar a reverter o preconceito contra a cannabis sativa no âmbito clínico. A produção é da Tímpano, onde atuei entre 2021 e 2022. Neste projeto, fui responsável pelo design de conteúdo e apresentação.
Foram realizados 18 episódios no total, sendo três para cada doença neurológica. Os nove primeiros originaram o Casos Clínicos com Dr. Pedro Pierro. Eles trataram de dor crônica, Parkinson e epilepsia. Os demais originaram o Casos Clínicos com Dr. Giuliano Robba, abrangendo AVC e isquemia, esclerose múltipla e Alzheimer.

Neste estudo de caso, em particular, vou usar os três primeiros episódios que pavimentaram o caminho estrutural e narrativo posteriormente replicado para toda a série. E vou focar a análise no médico convidado, que é neurocirurgião funcional, especialista em dor, pesquisador, educador, palestrante internacional e pioneiro na prescrição de cannabis medicinal no Brasil, Dr. Pedro Antônio Pierro Neto.
A minha expectativa é que ao analisarmos essa construção, você consiga perceber como a decisão estratégica de tratar humanidade como estrutura acontece na prática. E como esse mecanismo também pode te ajudar, na sua nova ideia ou desenvolvimento de produto com características semelhantes.
O desafio
Quando a gente lida com conteúdos, ao mesmo tempo técnicos e sensíveis, a correção é inegociável. Mas não é o suficiente.

Os projetos variam e com eles os desafios. Contudo, pra mim, todos eles têm algo em comum. Algo que a pessoa responsável pelo conteúdo nunca pode ignorar: a busca por entender como falar com e não para quem está do outro lado da experiência.
Em outras palavras, como transformar discurso em conversa.
Um produto ou experiência que discursa opera de forma vertical, de cima pra baixo. Ele cria uma hierarquia de saber e de relação emocional com o tema abordado. Cria distância. E nela, o ouvinte ou usuário ainda que seja convidado a agir, é colocado em posição de absorção e passividade.
Já aqueles que conversam operam de forma horizontal. Em vez de hierarquia e distância, o que se forma é partilha de algo a ser atravessado junto. Nela, a pessoa que vive a experiência é inevitavelmente ativa, porque toda a estrutura a convida a dar a sua parte na construção de sentido.
Sem o vínculo que o diálogo promove é muito fácil cair na armadilha de criar um conteúdo que informa, mas não toca. E o que não toca, não muda crenças, pontos de vista ou comportamentos.
Aqui, especificamente, a experiência precisava falar com médicos sobre um tema sensível e rodeado de preconceito. Então, a estrutura dessa engenharia de vínculo precisava vencer um duplo desafio:
transformar a leitura puramente técnica de casos, aos quais médicos já estão completamente acostumados, em algo que pudesse ser atravessado de uma nova maneira, levando-os a reconhecer pessoas e não prontuários;
simultaneamente, transformar o reconhecimento dessas histórias em revisão de conduta médica e de possível abertura ao aprofundamento acerca dos benefícios do uso do óleo com base em dados concretos.
Como eu resolvi
Meu trabalho com design de conteúdo se dá pela via de três filtros. Eles me ajudam a fazer as perguntas certas e a identificar exatamente o que excluir para chegar na essência de cada experiência, sem abrir mão do rigor. Neste caso, isso funcionou assim:
Filtro 1 - Jornalismo
Aqui eu busco o que informa. Meu objetivo é investigar e dar visibilidade ao que precisa ser revelado, comunicado, compreendido, atravessado.

A primeira etapa, além de briefing e pesquisa sobre o tema, consistiu na entrevista com o Dr. Pedro. Somada à apresentação dos casos clínicos em questão, foram levantados dados sobre sua própria história, como a cannabis começou a fazer parte da sua prática médica e os desafios enfrentados nesse processo.
No final, o que tenho é o material bruto dessa conversa, incluindo os momentos espontâneos que no futuro se tornam verdadeiras gemas. E o meu trabalho, na sequência, é selecionar o que fica e faz com que a história funcione.
Filtro 2 - Dramaturgia
Aqui eu busco o que estabelece o jogo. Meu objetivo é criar o espelho simbólico que torna aquela experiência única, reconhecível e dialógica (diálogo, interação = falar com). Para isso, lanço mão de alguns recursos narrativos, como a criação de personagens, forças de antagonismo e arco dramático.
Personagens e caracterização

Como esclarece McKee:
A tradição define diálogo como uma conversa entre personagens. Acredito, porém, que um estudo profundo e abrangente de diálogo começa com a visão mais ampla possível da arte de contar estórias. Desse ângulo, a primeira coisa que percebo é que a fala da personagem percorre três caminhos distintos; dita para os outros, dita para ele próprio e dita para o leitor ou espectador. (p. 21)
Nessa série, cada episódio é composto por duas vozes. A da narradora (eu, no caso) e a do médico. Ele fala em primeira pessoa, viveu a história e foi afetado pelo contato com os pacientes apresentados.
Ela fala em terceira pessoa, atua como uma entidade que guia o aluno através dos eventos da história que ela ouviu, mas não testemunhou. Como ela não é personagem, o diálogo não acontece entre eles.
Acontece de médico para médico.
É por isso que, mais do que uma autoridade técnica, ele e seus relatos passam a constituir a personagem central nessa história. Aqui a narrativa do Dr. Pedro, apesar de ser uma pessoa real, faz com que ele personifique o aprendiz e sua jornada.
Um personagem, porém, não se sustenta só pela ação verbal. Sustenta-se também por aquilo que o torna humano: sua personalidade, suas idiossincrasias, seu comportamento e suas formas de se expressar. Por isso, na seleção do material bruto, eu não guardei apenas o que fazia avançar o argumento. Guardei o que dava carne ao Dr. Pedro. Logo na abertura do primeiro episódio, mantive um momento que um corte apressado teria descartado:
Olha como eu sou um cara antenado nessas coisas. Eu só descobri que podcast era só áudio quando eu cheguei aqui. Eu vim até de gravata borboleta.
A gravata borboleta não informa nada sobre o tema da aula. Mas faz duas coisas de uma vez: dá ao ouvinte uma imagem visual num meio que só tem som, e desenha um traço de personalidade, o médico de referência que se diverte com a própria falta de intimidade com o formato. O mesmo vale para o jeito dele contar quando viu a melhora de uma paciente, sem ainda saber que ela estava tomando o óleo de cannabis:
Eu falei assim: cês foram lá no seu João? "Não". Foi com a mulher do algodão? "Não". Promessa? "Não". Novena da Dona Canô? "Não".
Ou para a ladainha dos nomes de rua da cannabis, que ele desfia no encerramento do terceiro episódio:
Maconha, Cânhamo, Capim Santo, Baúm, Faz-me-rir, Morrão, Bango, Rafe, Jericó, Abanga, Fumo Bravo, Bangue, Bagulho…
Nenhum desses trechos prova uma tese. Todos constroem alguém de quem se gosta de estar por perto. E essa é a função dramatúrgica da caracterização: um guia agradável é um guia em quem se confia, e um médico em quem o ouvinte confia é um médico de quem ele aceita ser conduzido pela travessia.
Antagonismo e arco dramático
Segundo McKee, forças de antagonismo não são necessariamente um antagonista ou vilão. Mas sim forças opostas de qualquer ou de todos os quatro níveis de conflito:
Conflito físico: tempo, espaço, universo humano ou natural.
Conflito social: instituições e pessoas que as comandam.
Conflito pessoal: relacionamentos de intimidade.
Conflito interno: mente e emoções da personagem.

Um caso clínico sobre dor crônica não teria, em si, grande tensão dramática, pois médicos leem prontuários o tempo todo. O conflito desta série não é aprender a tratar uma doença. É vencer o preconceito que este tratamento específico carrega dentro da própria comunidade médica. É esse o obstáculo que o ouvinte precisa atravessar, e é sobre ele que a dramaturgia trabalha.
Por isso o Dr. Pedro não entra como quem já sabe. Entra como quem também precisou atravessar. Ao personificar o aprendiz, ele conduz o ouvinte-médico por um processo de triplo reconhecimento e identificação, que são, na verdade, as três etapas de superar uma resistência.
Assim, ele:
Primeiro, encarna o conflito (interno e social), o mesmo que o ouvinte pode ter. Antes de qualquer análise clínica, a primeira coisa que aparece é o medo. Não o da paciente: o do médico. O preconceito que ele próprio enfrentou. O ouvinte reconhece o próprio receio dito em voz alta, e por uma autoridade no assunto. O conflito deixa de ser vergonha particular e vira ponto de partida compartilhado.
E o primeiro preconceito que eu passei com tudo isso foi em casa. Foi com a minha esposa, com os meus pais, com medo, na época, que eu perdesse a única coisa que eu sabia fazer. Que eu ia jogar fora todos aqueles anos de estudo, todo aquele investimento pessoal e familiar, eu iria jogar fora por conta disso.
Uma vez um pai olhou pra minha cara e falou assim, doutor, eu prefiro que o senhor abra a cabeça do meu filho do que o senhor der maconha pra ele. O preconceito era tão grande, tão enraizado e talvez me faltasse argumentos para naquele momento discutir melhor.
Depois, vira a chave e mostra por que atravessar fez sentido. Reconhecido o medo, o episódio conduz à decisão. Como o Dr. Pedro entendeu que ali havia ciência séria, não modismo, e por que ir além do preconceito passou a ser, para ele, uma questão de responsabilidade médica. É o momento em que o personagem decide (age), e ao decidir oferece ao ouvinte uma âncora de credibilidade que o próprio médico reconhece como válida.
Eu descobri que o primeiro estudo para epilepsia do mundo foi feito no Brasil na década de 80. […] tinha um cara que eu sabia bem, o Sanvito da Santa Casa, porque eu estudei no livro de Neurologia Propedêutica do Sanvito. Ele era a minha referência que deveria ser uma coisa séria.
Por fim, espelha a superação, o médico que se pode tornar. Fechado o arco, aparece o médico do outro lado da travessia. Transformado pela decisão que tomou, e capaz de nomear o que ganhou com ela. O ouvinte não recebe uma ordem (= discurso) para mudar de opinião. Recebe a imagem de quem já mudou, e do que essa mudança tornou possível.
A cannabis mudou a minha forma de ser médico. Mudou. Entendeu? E acredito que tenha sido para melhor.
Tem uns casos aqui que são de 40, 45 anos de dor de cabeça. Então, a qualidade de vida, a alegria que essas pessoas têm só não é maior do que mãe de autista. A mãe de autista, quando ela fala da melhora que o espectro autista teve em questões de comportamento e de sociabilização, só isso que é mais emocionante do que você controlar uma dor que há anos acompanha essa pessoa, faz parte da história de vida dela.
É assim que o preconceito é enfrentado: não por confronto frontal da narradora contra a plateia, mas encenado como conflito dramático e resolvido pelo personagem. O argumento existe, e é forte. Só que, em vez de pregado, ele é vivido. Um médico que não se moveria diante de uma tese se move diante de um colega que fez o mesmo percurso.
Filtro 3 - Design de Conteúdo
Aqui eu busco o que sustenta e escala. Meu objetivo é criar a forma que sustenta o vínculo, permanece e gera valor.

Se o filtro anterior foi a escrita da peça, o conflito, o personagem, o arco, este é a montagem no palco. É onde cada elemento sonoro deixa de ser acompanhamento e vira parte da dramaturgia: cria cenário, instala atmosfera, define ritmo, marca as quebras e conduz ao clímax. O design de conteúdo é organizado em duas colunas, técnica e locução, e é nessa costura que a história ganha corpo audível.
Os recursos, e a função de cada um dentro da montagem:
A trama sonora de abertura instala o clímax emocional antes do dado. O episódio não começa pela cronologia clínica. Começa por uma colagem de fragmentos fora de ordem, os momentos de maior carga da entrevista, sobre uma base de chiados e uma das versões da trilha. Quando o caso propriamente dito chega, o ouvinte já entrou pela emoção, não pela informação. É uma decisão de ordem: a experiência antes do argumento, para que o dado clínico chegue dentro de alguém que já foi tocado.
A trilha original cria atmosfera e assina a passagem. Composta por Migue Antar, com um tema principal e vinhetas, ela sustenta o clima de cada trecho e costura a transição entre os momentos do caso. Não é fundo musical: é o que diz ao ouvinte, sem palavras, quando o tom muda.
Os foleys constroem cenário e transição. Chiados, texturas, ruídos que imitam figurativamente ou não impressões sonoras espaço-temporais. Em vez de sonorizar de forma literal, eles criam uma camada sensorial que dá lugar à narrativa e move o ouvinte de uma cena à outra. A cada episódio a assinatura muda, mantendo a identidade da série sem repetir a fórmula.
A voz com efeito marca o tempo sem locução expositiva. Quando o caso avança no calendário clínico, dezembro de 2017, março de 2018, agosto de 2019, essa passagem é marcada por um tratamento na voz da narradora, não por um aviso falado. O ouvinte sente que o tempo passou, em vez de ser informado disso. A cronologia densa da medicação ganha ritmo em vez de virar lista.
A voz da narradora opera como costura. Ela não protagoniza. Ela liga os trechos selecionados, sustenta o arco e garante que o diálogo de médico para médico aconteça sem ruído. É a mão que segura a estrutura para que o personagem central ocupe o centro.
Os trechos da entrevista entram já com consciência do arco. A seleção não é resumo do que o Dr. disse. É julgamento determinado pela escolha dramatúrgica: cada fala mantida ocupa uma posição na construção do conflito, da virada ou da superação. O material bruto da entrevista vira partitura.
Montados juntos e na ordem correta, esses elementos fazem o caso clínico deixar de ser um relato e virar uma experiência que se atravessa. A montagem é onde a decisão de design se torna dramaturgia de fato: o som não ilustra a história, ele a encena.
Resultado: o que a dramaturgia tornou possível
Este não é um artigo sobre impacto, mas sobre método. Seu objetivo é demonstrar como a dramaturgia — por mais distante de produto que pareça estar — pode ser uma poderosa aliada em contextos técnicos e sensíveis, capaz de ensinar e de mover crenças ao mesmo tempo.
É ela que dá forma à humanidade, ao diálogo e, portanto, ao vínculo.
Três evidências mostram a dramaturgia operando como estrutura, e não como acabamento.
Ensinou pela arquitetura, não pela aula. Ao longo do primeiro módulo, três pacientes estabelecem três relações distintas com o mesmo tratamento: uma recusa por só acreditar na cirurgia; outra recusa por preconceito e só aceita depois, movida pelo que viu na televisão; a terceira aceita de imediato. Montados lado a lado, esses casos dizem ao médico o que nenhum protocolo ensina, que a adesão é uma relação, não uma prescrição. O aprendizado não está em nenhuma fala isolada. Está na dramaturgia que organiza os episódios entre si.
Moveu a crença pela forma, não pelo discurso. O primeiro episódio abre com fragmentos fora de ordem que instalam a experiência antes do dado. O módulo se encerra com os nomes de rua da cannabis, ditos pelo médico. Entrada e saída pelo mesmo material, reorganizado: o que começa como estranhamento termina como reconhecimento. A forma percorre, com o ouvinte, o mesmo caminho que se espera da conduta médica, do preconceito à abertura.
E funcionou o bastante para virar sistema. As decisões de design concebidas nesses três episódios sustentaram os 18 roteiros da série, que escrevi integralmente. Elas atravessaram a troca de doença, da dor crônica ao AVC, à esclerose múltipla, ao alzheimer, e a própria troca do médico convidado, com a entrada do Dr. Giuliano Robba. Uma dramaturgia que permanece de pé quando muda o tema e muda o protagonista não é improviso: é método.
Sobre as limitações. Este artigo documenta as decisões de design e a arquitetura da série, não o seu efeito sobre os alunos. A medição da recepção clínica pertence ao contratante, e não tive acesso a esses dados. O que está demonstrado aqui é o método: a estrutura pela qual rigor científico e reconhecimento humano chegam juntos, sem que um enfraqueça o outro. É isso que chamo de engenharia de vínculo.
Se o seu produto precisa que rigor e sensibilidade conversem, é disso que eu cuido. Estou aqui pra ajudar.

Ficha técnica Casos Clínicos com Dr. Pedro Pierro
Convidado: Dr. Pedro Pierro
Design de conteúdo e apresentação: Monalisa Vasconcelos
Assistência de roteiro: Caio Silviano
Pesquisador: Agustin Riquelme
Coordenação musical: Luís Santiago Málaga
Trilha sonora original: Migue Antar
Assistência de produção: Edmeia Vieira
Edição e finalização: Kléber Araujo
Direção de criação: Yonara Dantas
Produção: Tímpano Áudio Design



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