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Aprendizagem adaptativa: uma hipótese design além do gênero "neutro"

Neste post, eu te conto como reformulei um desafio de Design Instrucional com IA para construir uma plataforma de estudos para adolescentes que menstruam.



Quando o problema de design é a pergunta errada

Cinco dias para concluir um módulo. A métrica parecia razoável, o prazo, mensurável. O que ela não era?

Neutra.

Este projeto começou como um exercício do curso IA no Processo de Design, promovido pela Môre. Terminou como uma proposta de produto que questiona um pressuposto central no design de plataformas educacionais: a ideia de que todos os usuários operam sob condições estáveis, previsíveis e homogêneas. A decisão mais importante deste projeto não focou na interface, nem no uso deliberado de inteligência artifical. E sim em recusar o problema como ele foi apresentado.


Sou UX Writer, não UX Designer. Não questiono o problema a partir do fluxo e da interação, mas pela linguagem: o que a pergunta diz e, principalmente, o que ela silencia. Ir de "como motivar em 5 dias?" a "para quem esse ritmo foi projetado?" é um movimento de quem pensa design de conteúdo como estrutura e não como acessório.


O problema não era o que parecia

O desafio proposto pelo professor André F. Costa era direto: como motivar a conclusão de um módulo em 5 dias?

A pergunta tem uma lógica interna coerente. Define uma métrica, pressupõe um comportamento desejado e pede uma solução de engajamento. Mas ao examinar o que ela assume, o problema muda de natureza.

A premissa implícita é que o ritmo de aprendizagem pode ser padronizado. Que uma janela de cinco dias funciona de forma equivalente para qualquer pessoa, em qualquer semana. Que o corpo não é uma variável de design.

Essa lógica tem nome e tem consequências. Caroline Criado Perez descreve o mecanismo com precisão em Mulheres Invisíveis: "E assim essas diferenças continuam a ser desconsideradas, e continuamos a agir como se o corpo masculino e a experiência da vida que ele proporciona fossem de um gênero neutro. Essa é uma forma de discriminação contra mulheres."

O que a citação torna visível é que a neutralidade de um sistema raramente é neutra de verdade. Ela reflete o ponto de vista de quem o projetou, e quando esse ponto de vista é tomado como padrão universal, ele apaga as condições reais de quem não se encaixa nele.

A decisão, então, foi reescrever a pergunta: como projetar uma experiência de aprendizado que leve em consideração variações fisiológicas reais, em vez de ignorá-las?

Essa reformulação não é apenas mais inclusiva. É mais honesta sobre como os corpos funcionam e mais precisa sobre o que um produto de educação precisa resolver nesse contexto.

Por que isso importa além do produto

A escolha de trabalhar com letramento de gênero como tema da plataforma não foi decorativa. Ela se ancora em um cenário documentado e urgente.

O Brasil tem hoje o maior número de feminicídios dos últimos 10 anos. De acordo com o portal da CNN, dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicaram 1.568 feminicídios em 2025, uma alta de 4,7% em relação ao ano anterior, o maior número da última década. O início de 2026 já apresenta crescimento em relação ao mesmo período do ano anterior.


Em matéria publicada pela Agência Brasil , um relatório da Rede de Observatórios da Segurança, apontou uma média atual de 12 mulheres vítimas de violência por dia.

Além do aumento de 9% em relação a 2024, outros indicadores assustam ainda mais: a violência sexual teve o expressivo crescimento de 56,6%. Mais da metade das vítimas eram meninas de 0 a 17 anos. No recorte regional, piora. No Amazonas, por exemplo, 78,4% das vítimas de violência sexual eram crianças e adolescentes.

O relatório também apontou a educação em equidade de gênero como uma das principais estratégias de prevenção da violência.

Isso desloca o papel do produto: de plataforma de cursos em letramento de gênero para ferramenta com potencial de impacto social concreto.

Esse contexto não abre uma nova discussão dentro do projeto. Ele legitima e orienta a decisão de produto que vem a seguir.

A hipótese de design

  • O que está sendo questionado: a lógica de progressão linear e padronizada como modelo universal para plataformas de aprendizagem.

  • O que está sendo proposto: um sistema que reconhece o corpo como variável legítima na experiência de aprendizado, incorporando variações fisiológicas reais ao design da jornada.

  • O que está sendo testado: se oferecer dois modelos distintos de progressão, um baseado em calendário e outro baseado em ciclo corporal, impacta o engajamento e a conclusão de módulos por parte de usuárias que enfrentam sintomas associados a variações hormonais.

O produto, nesse sentido, deixa de ser apenas uma solução funcional. Ele se torna também uma hipótese de design, algo que pode ser observado, medido e revisado.

A materialização: construindo a Yasmin

A proposta se concretiza em uma plataforma de cursos chamada Yasmin, projetada para um público específico: adolescentes entre 14 e 18 anos que menstruam.

O objetivo central é o letramento de gênero. O diferencial estrutural é que o corpo é tratado como variável de design desde o início, e não como exceção a ser acomodada depois.

Público e escopo

A escolha por adolescentes é deliberada. É uma faixa etária em que a formação de referências sobre gênero ainda está em curso, em que os impactos de uma educação mais equitativa têm maior alcance temporal, e em que os efeitos das variações hormonais no cotidiano são frequentemente novos, mal compreendidos e raramente considerados em contextos de aprendizagem formal.

As duas jornadas

O núcleo da solução é a coexistência de dois modelos de progressão:

Tela para escolha de progressão na plataforma Yasmin
Tela para escolha de progressão na plataforma Yasmin

Modo calendário

  • Progressão fixa, com metas definidas por data.

  • Alta previsibilidade.

  • Alinhado à lógica dos modelos tradicionais de ensino.

  • Funciona bem para usuárias cujos sintomas não interferem significativamente na rotina de estudos, ou que preferem uma estrutura estável independentemente disso.

Modo ciclo

  • Progressão adaptativa, que considera sintomas como dor, fadiga e variações de concentração ao longo do ciclo menstrual.

  • Introduz uma lógica de aprendizagem baseada no ritmo corporal, permitindo que a usuária ajuste o andamento do módulo a partir de como está se sentindo, sem que isso seja lido pelo sistema como abandono ou atraso.

O que muda estruturalmente entre os dois modos não é apenas a interface. É o modelo de tempo que o produto assume. O modo calendário opera com tempo como dado fixo. O modo ciclo opera com tempo como variável responsiva.

Por que isso importa: a distinção entre os dois modelos não é uma questão de preferência de uso. E sim para quem o produto foi projetado por padrão, e como ele trata quem não se encaixa nesse padrão.

Processo orientado a decisão: o papel da IA

Em nenhum momento o papel da IA foi gerar a decisão. O papel foi reduzir o tempo entre a intenção e o resultado, mantendo o controle analítico sobre o que estava sendo produzido.

As ferramentas usadas ao longo do projeto foram: Perplexity para pesquisa de personas, FigJam AI e JamBot para mapeamento de jornada e ideação, Sora para exploração visual, Figma Make e Lovable para prototipagem navegável.

Print da documentação visual do processo no Miro
Print da documentação visual do processo no Miro

Todo o processo foi documentado no Miro. Lá, você também consegue visualizar mais detalhes dos meus achados em cada etapa, além dos prompts utilizados. Mas aqui vai um resumo de como cada IA contribuiu com meu processo:

Perplexity (pesquisa de personas): Acelerou a síntese de características e contextos relevantes para o público-alvo. A contribuição foi na velocidade de consolidação de referências, não na definição de quem é a usuária, que exige juízo sobre contexto e não apenas recuperação de informação.

FigJam AI + JamBot (jornada e ideação): Úteis para estruturar o mapa de jornada e gerar variações iniciais de conceito. O limite ficou evidente quando as sugestões tendiam a reproduzir soluções já conhecidas. A reformulação do problema, que é o núcleo deste projeto, não emergiu da ferramenta. Emergiu da leitura crítica do desafio antes de qualquer prompt.

Print do User Journey Map com FigJam AI e e brainstorm com JamBot
Print do User Journey Map com FigJam AI e e brainstorm com JamBot

Sora e Perplexity (exploração visual): Usado para explorar a linguagem visual da plataforma em estágio inicial. Gerou referências de atmosfera e tom antes da definição de componentes.

Print dos mockups da tela de onboarding gerados com Perplexity e Sora
Print dos mockups da tela de onboarding gerados com Perplexity e Sora

Figma Make e Lovable (prototipagem): Dois protótipos navegáveis foram produzidos. A versão gratuita do FM não permitiu ir além do primeiro prompt. O segundo, desenvolvido no Lovable, ficou mais completo em termos de interação e fidelidade.

Os links para acesso:

Limitações

Este projeto foi desenvolvido em 60 minutos como exercício de fluxo de trabalho com IA. Algumas delimitações precisam ser colocadas.

Não há validação com usuárias reais. As personas foram construídas com auxílio de ferramentas generativas e não substituem pesquisa primária com o público de 14 a 18 anos. Os dois modos de progressão são uma hipótese de design, não uma solução validada.

A eficácia do modo ciclo em termos de engajamento e conclusão de módulos é, até aqui, uma pergunta em aberto. O projeto propõe o teste, não responde a ele.

O contexto de violência de gênero foi usado como dado orientador para as decisões de produto, e não como objeto de análise aprofundada dentro do escopo desta entrega.

Síntese

A decisão central deste projeto foi recusar a pergunta como ela foi apresentada. "Como motivar a conclusão de um módulo em 5 dias?" carrega uma premissa sobre o que conta como ritmo legítimo de aprendizagem, e sobre para quem esse ritmo foi projetado.

Questionar essa premissa foi o passo que tornou possível propor algo estruturalmente diferente, uma plataforma que trata o corpo como variável de design e testa se essa variável tem impacto mensurável no engajamento.

O produto resultante é uma hipótese, não uma resposta. Mas uma hipótese bem formulada já é, em si, uma decisão de design.

 
 
 

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