Desvendando Evidências: como dados viram boas histórias
- Monalisa Vasconcelos
- 2 de jun. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 19 de mai.
Vem aqui que eu vou te contar como eu usei o design de conteúdo para conectar pesquisadores, gestores públicos e agentes de todo o ecossistema escolar, por meio de histórias acessíveis, humanas e envolventes no podcast Desvendando Evidências.

O desafio
Como transformar entrevistas com especialistas em políticas públicas educacionais para educação básica em uma experiência de escuta que emocionasse, informasse e gerasse conexão?
Esse dilema era o centro do meu desafio como redatora deste podcast. Afinal, estamos falando de evidências, dados e estudos técnicos — temas que, se mal conduzidos, podem soar áridos ou distantes. Então, somado ao mergulho profundo nos artigos para pautar o roteiro das conversas, era preciso criar uma experiência que, além de confiável, fosse acessível, sensível e envolvente.
O que eu fiz
Utilizando técnicas de storytelling e dramaturgia sonora, minha principal estratégia para atingir os objetivos do podcast foi focar no humano e em experiências facilmente reconhecíveis pela audiência. Isso se traduziu em 4 pilares principais:
1. Storytelling centrado nas jornadas humanas
Antes de falar dos resultados das pesquisas, eu propus trazer à tona o processo vivido por cada pesquisador: o que os motivou, que dilemas enfrentaram, o processo da pesquisa como um todo. A ideia era mostrar que a ciência também é feita de paixão, tentativas e trajetórias pessoais.
2. Sound Design centrado no ambiente escolar
Normalmente, ao fazer o desenho de som de um podcast, eu já indico os foleys desde a composição do roteiro inicial. Esses efeitos sonoros introduzem sons relativos ao que está sendo dito no texto, ajudando a compor a dramaturgia e, por consequência, ajudando a pessoa ouvinte a mergulhar na experiência.
Mas, como se tratava de um podcast de entrevistas com foco em dados científicos, o uso tradicional de foleys seria pouco funcional. Ainda assim, eu tentei — porque queria criar essa sensação mais próxima da história do que da mera transmissão de informações para ajudar nesse "desdistanciamento" entre a academia e a audiência. Mas não rolou.
Então, a minha escolha foi criar uma espécie de "diálogo de fundo" entre duas sonoridades bastante reconhecíveis pelo público central do podcast: as ambiências "externo escola" e "interno sala". A ideia aqui era ajudar a audiência a se transportar ao universo da narrativa através do som, além de criar um ritmo mais vivo e dinâmico.

3. Tom de voz próximo e autêntico
Muitas vezes, não é tanto o que a gente fala, mas como a gente fala, o que garante o rumo de uma narrativa e as sensações que ela desperta. Nesse caso, a escolha do tom é primordial. Aqui era fundamental que a audiência sentisse estar fazendo parte de uma conversa leve, bem humorada e de fácil compreensão.
Além de redatora, eu também apresentava o podcast, então o que fiz foi propor uma condução mais informal, coloquial e com o uso intencional do meu sotaque mineiro (com expressões como "arreda pra cá"). Outro detalhe era me apresentar na abertura como “Mona” ao invés de “Monalisa Vasconcelos", como normalmente utilizo em contextos mais formais.
4. Pessoas antes de títulos
A gente sabe como o academiquês pode afastar quem não vive essa realidade das pesquisas científicas no seu cotidiano. Além disso, convenhamos, falar de escolhas em políticas públicas baseadas em dados também não é um tema muito habitual e fácil de digerir. Nisso, a figura do pesquisador podia facilmente cair num lugar árido e de pouca conexão.
Para resolver essa questão, eu criei um quadro chamado “Avatare-me", que entrava sempre antes de apresentar o currículo da pessoa entrevistada. A ideia aqui era justamente criar um "avatar", uma persona digital dos pesquisadores.

Esse quadro funcionava como a criação de uma holografia sonora. Suas dimensões eram criadas a partir de uma montagem composta de foleys futuristas, descrições físicas e pequenos depoimentos de âmbito mais pessoal, como “quando criança eu sonhava em ser…” ou “pouca gente sabe, mas eu adoro…).

"Eu dava aula para as bonecas. Eu queria ser professora. Eu queria, na verdade, salvar o mundo e achava que essa salvação ia ser pela educação. E eu acho que ela mora dentro de mim com muita força. Ela não morreu, essa menina. Ela está lá dentro.”
Essa quebra de expectativa gerava curiosidade, simpatia e conexão imediata, humanizando a figura do pesquisador e abrindo caminho para que sua fala técnica fosse ouvida com mais atenção e empatia.
Resultado
O podcast gerou uma série de 12 episódios e foi lançado em todas as plataformas de áudio. Conseguiu traduzir com leveza e profundidade seus conceitos centrais, apontando caminhos para uma educação publica mais equitativa e apoiada em evidências. E, sobretudo, resgatou o que há de humano na produção e na escuta do conhecimento.
Essa foi mais uma prova de que design de conteúdo, tom e storytelling são ferramentas poderosas para criar pontes entre universos que muitas vezes parecem distantes. Nesse caso, entre a academia e as políticas públicas, entre dados e afetos, entre vozes e escutas.
Um 😘 e um 🧀 , inté!
Mona



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